RESENHA: A incrível e triste história de Cândida Erêndira e sua avó desalmada - Gabriel Garcia Marquéz

"Os sete contos que compõem esta coletânea mostram o impacto de estranhos acontecimentos no cotidiano dos personagens. Por exemplo, na última história, que dá título ao livro, a jovem Cândida Erêndira cai exausta na cama com um candelabro ao lado. Acorda com os restos de um incêndio devastador. Sua avó a considera culpada pelo acontecido e decide que ela pagará pelo prejuízo se prostituindo. Após anos de exploração, o amor de Ulisses pode ser a única salvação de um triste destino."
Não sou ninguém importante para dizer o que é literatura ou o que não é. Afinal, a concepção que cada um tem do que pode ser considerado arte-palavra é muito complexa e diversa, então acaba sendo um assunto espinhoso. Aqui pelo blog mesmo, você tem diversos exemplos dessa ideia, pois nós, resenhistas, temos estilos diferentes de livros, que conversam, em determinados momentos, mas enquanto palavra-papel somos opostos em estilos.

Na minha inculta visão, literatura (e arte, afinal de contas são indissociáveis) é aquilo capaz de mexer na coisa íntima do ser, naquilo que não possui nome. E essa é uma tarefa árdua do escritor, pois criar uma história é muito simples, quando comparado com a habilidade de transformar essa história em algo mais interno, que seja capaz de resgatar instâncias psíquicas que lidem com emoções importantes, e desperte, então, o ser para todas as plantas do jardim. Sim, você que pensou em Herman Hesse, sim, essa ideia parte muito do livro “O Lobo da Estepe”, que é um baita livrão, e, além disso, proporcionou-me essa concepção de temos um jardim de emoções por dentro e temos o direito de conhece-lo em sua totalidade e não apenas uma ou duas flores; isso é literatura, aquilo que proporciona a descoberta da fauna do jardim de cada um.
"Erêndira, que caminhava ao lado do burro abatida pelo calor e pelo pó, não fez nenhum reparo às contas da avó, mas teve de conter-se para não chorar.
- Tenho vidro moído nos ossos - disse.
- Trate de dormir.
- Sim, avó.
Fechou os olhos. respirou fundo uma golfada de ar abrasante e continuou caminhando adormecida."
A resenha de hoje é sobre o livro de contos "A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada", do Gabriel Garcia Márquez. O título diz respeito ao último e mais extenso conto do livro, que é composto por outros seis: "Um Senhor Muito Velho com umas Asas Enormes"; "O Mar do Tempo Perdido"; "O Afogado Mais Bonito do Mundo"; "Morte Constante para Lá do Amor"; "A Última Viagem do Navio-Fantasma"; e "Blacaman, o Bom Vendedor de Milagres".

A introdução ligeiramente enorme que fiz para esta resenha é, justamente, para explicitar o caráter humano destes contos. Veja, no jardim visitaremos duas emoções antagônicas da inconsciência humana, a Desgraça e a Redenção. Em todas as histórias, todo mundo é desgraçado: o velho-anjo, a senhora que o acolhe, os velhos que sentem o cheiro do mar, o afogado, as vilas, os campos, as cidades. Mas, todos anseiam por redenção, e algum momento a conquistam, em outros não.

O Garcia Márquez é um escritor latino dos bons (laureado com o Nobel e tudo mais), ele consegue, com sua prosa envolvente e fantástica, entrelaçar a história da América Latina e a narrativa culta de maneira espetacular. Nos contos deste livro, senti uma crítica às explorações que nosso continente sofreu, e como isso moldou nosso espaço a ponto de só restar campos vazios, calor, terras secas e sem plantas, um mar que traz afogados e que cheira a morte. Como o constante processo de guerras e interferências fizeram com que o povo, de certa forma, amargasse, desesperançasse e apenas existisse.

O último conto, da Erêndira, deixa este aspecto bem claro. Podemos substituir Erêndira por uma virgem América Latina e sua avó maluca por uma alienada Europa, e, assim, temos Erêndira, que depois de toda a exploração que sofre, todos os abusos para “acertar as contas” com sua avó, acaba com um desejo homicida com relação a velha, e a avó cada vez mais senil e gananciosa – não seria esse o panorama histórico? Não seria esse, talvez, nosso cenário ainda?

É um livro gostoso, as histórias são contadas num tom brando, mas não se engane, pois é muito mais que isso: é desgraça, é desespero, agonia, dor, solidão, saudade, fome, tristeza, morte. Mas também é redenção, dança, festa, lágrimas, bebidas, redescobertas. É sangue latino da primeira até a última página.

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