RESENHA: A Hora da Estrela - Clarice Lispector

A história da nordestina Macabéa é contada passo a passo pelo escritor Rodrigo S.M., alter-ego de Clarice Lispector, de um modo que busca permitir aos leitores acompanhar o seu processo de criação. O autor faz o relato da vida triste e sem perspectiva da alagoana Macabéa, pontuada com as informações do 'Você sabia?' da rádio Relógio, sinistro metrônomo a comandar o ritmo de seus últimos dias de vida. Para a cartomante Carlota, a quem Macabéa procura em busca de um sopro de esperança, esses dias derradeiros deveriam ser coroados com o casamento com um estrangeiro rico. Mas, ironicamente, Macabéa termina sob as rodas de um automóvel de luxo Mercedes-Benz.
A quantidade de vezes que falo sobre como escrever é difícil, sobre como a vida é um fardo muito grande para a arte, ainda mais palavras. Parte do que digo vem muito das minhas experiência pela obra da Clarice Lispector; ler os contos/romances/crônicas dessa autora fantástica é uma viagem impressionante pelos cantos do eu de dentro: as indagações, as implicações, os enredos minimos, as divagações que cada um (e todos nós) temos sobre a vida mas não temos contato com isso, e os motivo para isso são tão subjetivos quanto a própria literatura é - quanto a própria vida é - quanto o próprio eu é (é?).

A Clarice é conhecida por seus livros introspectivos e tudo mais, entretanto, em A hora da estrela a autora se joga para fora de seu introspectivismo (pode isso, gente?), mas não totalmente. Nesse livro, ela usa o nome de Rodrigo (que é a própria Clarice - por que não dar nome ao elefante da sala?) como narrador da história da nordestina Macabéa, e ele (ela) conta a história da personagem, sempre salientando como colocar uma vida em palavras. 

O resumo que está logo no começo da resenha é tudo o que se pode dizer do enredo. Mas o grandioso não está no enredo, e sim nas nuances do ser registradas por Lispector. Veja, sua obra, até então resumida a introspectividade, se revela aqui numa escrita política sem, no entanto, deixar de lado a agonia de existir sem se dar conta. 
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar "Quem sou eu?" cairia estatelada e em cheio no chão. É que "quem sou eu?" provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto.
O livro foi escrito durante o período de ditadura brasileiro, e a autora utiliza de diversos elementos para representar tal período, como, logo com a apresentação da personagem, ao sugerir uma mulher nordestina que não conhece muito sobre si e nem sobre o mundo, que se informa por meio de um programa de propagandas no rádio relógio, que leva uma rotina alienante, sendo parcamente alfabetizada e, mesmo assim, trabalhar como datilografa. 

Quando Maca vai ao médico, a representação do caótico mundo que o Brasil se transformara, e em suas diversas esferas, veja bem, torna a obra atualíssima e necessária (por isso consta nas lista dos vestibulares, zé!). O médico, e a medicina, representam mais do que si, e extrapolam-se para todas as zona nas quais o poder se acomodava.
Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar ganhar dinheiro e nunca por amor à profissão nem a doentes. Era desatento e achava a pobreza uma coisa feia. Trabalhava para os pobre detestando lidar com eles. Eles eram para ele o rebotalho de uma sociedade muito alta à qual também ele não pertencia. Sabia que estava desatualizado na medicina e nas novidades clínicas, mas para pobre servia. O seu sonho era ter dinheiro para fazer exatamente o que queria: nada.
Acredito eu (usando o já famigerado jargão proibido nas redações e tudo mais) seja um romance de experimentação com a matéria morta que é a palavra. Além de um romance político. Além de um salto para fora, na escrita de Clarice. Além de atravessar a todos nos e a cada um. Além de ser nada. Além de ser a vida de uma falta de consciência representada. Além de não ser e ser, ao mesmo tempo, o na falta dele, continuar sendo.

- Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, embora isso custe dinheiro.- É para eu não me doer.- Como é que é? Hein? Você se dói?- Eu me doo o tempo todo.- Aonde?- Dentro, não sei explicar.
Uma vez, num dos encontros do Leia Mulheres, aqui em Sorocaba, discutimos esse livro. E uma dos pontos levantados durante a discussão foi o existir de Macabéa. E eu não me lembro mais quem, mas a fala não me sai da cabeça: "seria Macabéa tão alienada de se e do mundo, ou nós que pensamos demais, e estamos ligados em coisas demais, e por isso achamos demais pensar numa personagem que fica feliz por lamber espuma?".


2 comentários:

  1. Olá
    Li esse livro quando eu tinhas uns 14 anos e confesso que não gostei, não entendi. Até tenho vontade de ler novamente pra ver se entendo, mas não tenho mais meu exemplar. Quem sabe um dia eu releia e entenda toda a maravilha da escrita da Lispector.

    Vidas em Preto e Branco

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    1. Oi Lary!
      Então, garota, Clarice é uma coisa que cê precisa dar uma chance de leitura, ou reler, sempre, pois nunca somos os mesmos, né? Como mudamos sempre, nossa percepção das coisas e de nós muda também. Dê uma nova chance e nos conte o que achou, por favor! <3

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