LANÇAMENTOS: Rocco - Junho/2017 - Quarto dos Livros

LANÇAMENTOS: Rocco - Junho/2017



O conto da Aia
Autor: Margaret Atwood
Tradução: Ana Diró
Páginas: 386
"O romance distópico O conto da aia, de Margaret Atwood, se passa num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no Muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Para merecer esse destino, não é preciso fazer muita coisa – basta, por exemplo, cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América.
Uma das obras mais importantes da premiada escritora canadense, conhecida por seu ativismo político, ambiental e em prol das causas femininas, O conto da aia foi escrito em 1985, mas ganhou status de oráculo após a eleição de Donald Trump nos EUA, voltando a ocupar posição de destaque nas listas dos mais vendidos em diversos países 30 anos após o seu lançamento, além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original), recém-lançada pelo canal de streaming Hulu. A boa notícia para os leitores brasileiros é que o livro volta agora às prateleiras pela Rocco, que publica a obra de Atwood no Brasil, com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano. 
As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado. A Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar, depois que uma catástrofe nuclear tornou estéril um grande número de pessoas. As mulheres transformadas em aias são entregues a algum homem casado do alto escalão do exército e obrigadas a fazer sexo com eles até engravidar. Depois de dar à luz, elas amamentam a criança por alguns meses, sendo o bebê propriedade do casal que as escravizou, e então são entregues a outro homem, agora com outro nome – Offred significa “of Fred” (“de Fred”) ou “pertencente ao homem chamado Fred”. Assim, ao longo da vida, uma aia pode ter vários donos e, portanto, vários nomes: Ofglen, Ofcharles, Ofwayne...
Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Por isso, sua filha lhe foi tomada e entregue para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. “A sanidade é um bem valioso: eu a amealho e guardo escondida, como as pessoas antigamente amealhavam e escondiam dinheiro. Economizo sanidade, de maneira a vir a ter o suficiente quando chegar a hora”, escreve Offred em seu diário proibido. E sem dúvida, ainda que vigiada dia e noite e ceifada em seus direitos mais básicos, o destino de uma aia ainda é melhor que o das não-mulheres, como são chamadas aquelas que não podem ter filhos, as homossexuais, viúvas e feministas, condenadas a trabalhos forçados nas colônias, lugares onde o nível de radiação é mortífero.
Com esta história assustadora, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente. "


Primeiro dia de Chu na escola #2
Autor: Neil Gaiman e Adam Rex
Série: Chu
Tradução: Ana Bergin
Páginas: 36
"Chu é um filhote de panda fofinho como todo filhote de panda. O que há de diferente com ele é que Chu é muito alérgico. E quando ele espirra, coisas ruins podem acontecer. Isso os leitores de "O dia de Chu", o primeiro livro de Neil Gaiman sobre o urso panda mais alérgico do planeta, já sabem. Mas agora, Chu está prestes a ir para a escola. E como toda criança, ele está um pouco nervoso. O que ele vai fazer lá? Será que os colegas vão gostar dele? 

Em "O primeiro dia de Chu na escola", o consagrado autor de Coraline acompanha a aventura de um pequeno urso panda indo para a escola pela primeira vez. Na véspera do primeiro dia de aula, os pais tentam tranquilizá-lo: “É claro que vão gostar de você”, diz a mãe, carinhosa. E Chu deseja muito que ela esteja certa. 

Quando chega à escola no dia seguinte, tudo parece muito legal e a professora logo pede aos alunos que se apresentem e digam o que mais gostam de fazer. Chu fica encantado com as habilidades de seus novos amigos! E acaba ficando por último. Mas, de repente, uma poeirinha de giz entra em seu nariz. E antes mesmo que ele possa começar a falar, solta um espirro daqueles. 
Como será que Chu se sairá em seu primeiro dia na escola? Se depender da imaginação e da sensibilidade de Neil Gaiman, aliadas às ilustrações divertidas de Adam Rex, o pequeno panda não terá dificuldades em mostrar a seus novos amigos o que sabe fazer de melhor."


O garoto da loteria
Autor: Michael Byrne
Tradução: Marcelo Schild Arlin
Páginas: 256
"Primeiro livro do inglês Michael Byrne, "O garoto da loteria" é uma história sobre sobrevivência, esperança e amadurecimento. Bully tem 12 anos e, desde que perdeu a mãe, vive nas ruas de Londres. Sua única companhia é a cadela Jack, com quem ele divide a cama improvisada a cada noite e o pouco que consegue para comer no dia a dia. Mas também seu amor e, eventualmente, o sonho de conquistar um futuro melhor – embora ele já não consiga imaginar umfuturo, vagando a cada dia na tentativa de garantir o mínimo necessário para (sobre)viver. Pelo menos até o dia seguinte. 

Mas o futuro sorri para Bully quando ele encontra, em um dos bolsos do casaco surrado onde carrega toda a sua vida, um bilhete de loteria premiado, dentro de um antigo cartão de aniversário que sua mãe lhe deixou. Depois de perder uma preciosa nota de vinte libras que ganhou de uma senhora para Janks, o “cobrador de impostos” dos mendigos do submundo londrino, Bully mal pode acreditar no que seus olhos veem. Menos ainda quando ele descobre que se trata de um prêmio milionário. E que o prazo para retirá-lo está se esgotando.

Cinco dias, quatro horas e trinta minutos. Enquanto imagina tudo o que irá fazer com o dinheiro, Bully embarca numa dramática jornada para chegar à sede da companhia lotérica em Watford, provar que é o dono do bilhete premiado e retirar seu prêmio antes que o prazo termine. Mas encontra vários obstáculos pelo caminho. Entre eles, a frase escrita em letras miúdas: “É ilegal para qualquer pessoa com menos de dezesseis anos comprar bilhetes ou coletar prêmios.” Embora possa aparentar ter mais do que seus 12 anos e seja esperto o bastante para perceber que não pode contar seu segredo para qualquer um, Bully sabe que vai precisar de ajuda. Mas em quem confiar quando se é uma criança desamparada que subitamente vira “o garoto da loteria”? 

Será que Bully encontrará alguém para ajudá-lo a conseguir o que é dele sem exigir algo em troca? E mais do que isso, será que ele ganhará o que mais precisa desde que perdeu sua mãe, além do prêmio em dinheiro? Expondo toda a dureza da vida nas ruas e as dificuldades por que passam milhões de crianças nessa situação em todo o mundo, O garoto da loteria é uma aventura emocionante que prende a atenção do leitor da primeira à última página."



Levana #5
Autor: Marissa Meyer
Série: Crônicas Luanres
Tradução: Regiane Winarski
Páginas: 256
"Quem leu a série Crônicas Lunares conhece bem a poderosa rainha de Luna, que controla o planeta com mão de ferro e ambiciona estender seus domínios para a Terra. Mas como ela chegou a esse ponto? Em Levana, a autora Marissa Meyer conta a história da princesa que, ainda jovem, passou a governante de seu povo. Baseada na Rainha Má de Branca de Neve, a protagonista não mede esforços para atingir seus objetivos. A trama começa quando Levana Blackburn está perto de completar 15 anos e se estende por cerca de uma década da vida dela. 
Após o assassinato do rei Marrok e da rainha Jannali, a corte se prepara para coroar a próxima soberana de Luna: Channary, a irmã mais velha de Levana. Bela e cruel, a primogênita da família sempre maltratou a caçula, agredindo-a tanto física quanto psicologicamente. Quando as duas eram crianças, Channary se divertiu usando seus poderes para forçar Levana a se atirar ao fogo, fingindo para os adultos que tudo não passou de um trágico acidente. Por toda a vida, Levana teria que conviver com o resultado da brincadeira mórbida: a jovem princesa passou a evitar espelhos e aprendeu a usar seu dom para mudar a aparência, escondendo do mundo o corpo e o rosto bastante deformados pelas queimaduras.
Mas o palácio não é só tristeza para Levana. Desde criança, ela é apaixonada por Evret Hayle, um dos guardas reais. Quase dez anos mais velho do que a princesa, Hayle sente carinho por ela e espera ser visto como um amigo, já que é louco pela mulher, Solstice. O problema é que Levana está convencida de que eles foram feitos um para o outro e que seu amor é correspondido. Quando Solstice morre ao dar à luz Winter, filha do casal, Levana vê a oportunidade de realizar seu sonho e acaba usando seus poderes para forçar Evret a se tornar marido dela e mudar-se para os aposentos reais com o bebê. 
Paralelamente, Channary decide que é hora de engravidar. Assim nasce Selene, a herdeira do trono de Luna. Quando a irmã adoece e morre, Levana é designada rainha regente até que a sobrinha complete 13 anos. Mas a nova soberana lunar não está disposta a abrir mão de governar seu povo. Inebriada pelo poder e com plena convicção de que é a única a saber o que é melhor para seus súditos, Levana fará o que puder para manter a coroa em sua cabeça. Fria e calculista, ela passará por cima de qualquer um que estiver em seu caminho. Mergulhe na trama de Marissa Meyer e conheça a história que dá origem às Crônicas Lunares."


Jane Austen roubou meu namorado
Autor: Cora Harrison
Tradução: Dilma Machado
Páginas: 288
"Baseado nos diários da escritora Jane Austen na adolescência, este divertido romance juvenil é uma história de aventura, mistério, fofocas e, claro, flertes e paixões. Uma das autoras mais queridas em todo o mundo, cujo bicentenário de morte ocorre este ano, Jane Austen (1775-1817) segue arrebanhando uma legião de fãs em pleno século XXI com romances nos quais retrata a sociedade inglesa de sua época com precisão e ironia. Em Jane Austen roubou meu namorado, a escritora irlandesa Cora Harrison recria, para os jovens de hoje, a atmosfera dos livros da própria Jane Austen, mesclando ficção e dados reais, a partir dos diários da autora de Orgulho e preconceito. O livro retrata as peripécias amorosas da futura escritora, que já se considerava uma especialista em assuntos do coração, e de sua prima Jenny.
Espirituosa, inteligente e com um comentário sempre na ponta da língua para qualquer situação, nada passa despercebido a Jane Austen. Ela também é a melhor amiga que alguém poderia desejar. Para sorte de Jenny Cooper, a prima que passou a morar com os Austen depois da perda dos pais. As duas garotas tornam-se inseparáveis. Mas quando os planos perfeitos do casamento de Jenny com Thomas Williams são atrapalhados pelo tutor e irmão mais velho Edward-John, claramente influenciado pela esposa Augusta, as duas amigas precisam encontrar rapidamente uma forma de reverter essa situação.
Perspicaz como sempre, Jane pensa logo em contar tudo a Elisa de Feuillide, uma parente mais velha e com mais experiência sobre como influenciar Edward-John. Elisa lembra-se de um advogado em Bath, que talvez possa ter uma solução para a independência de Jenny. A menção a Bath deixa as duas meninas alvoroçadas. Afinal, a cidade onde Elisa mora é o sonho de qualquer garota de província, como Jane e Jenny. Bath é grande, desenvolvida e, especialmente, com muitas opções de bailes frequentados por jovens interessantes. Não que conhecer jovens cavalheiros seja um problema para elas.
A temporada em Bath revela-se uma ótima fonte de histórias, ainda mais depois que a tia Leigh-Perrot passa por apuros na justiça. O leitor fica sabendo de cada detalhe a partir das anotações de Jenny em seu diário. Até mesmo Jane usa o diário de Jenny para guardar observações sobre pessoas interessantes e possíveis enredos. Para compor as personagens, a escritora Cora Harrison foi atrás de documentos e antigas cartas de Jane Austen e sua família. Além de escrever uma história leve e divertida, ela entrega aos jovens fãs de Jane Austen detalhes da vida da aclamada escritora inglesa."


Comportamento totalmente ilógico
Autor: John Corey Whaley
Tradução: Ana Carolina Mesquista
Páginas: 256
"Um garoto de 16 anos tímido e retraído que sofre de agorafobia (transtorno de ansiedade que leva a pessoa a evitar locais que não considera seguros); uma menina ambiciosa e realista que sonha em entrar para a faculdade de psicologia. Determinada a provar que merece ser aceita no segundo melhor curso do país, Lisa se aproxima de Solomon para ajudá-lo a superar suas dificuldades, trazendo também seu encantador namorado, Clark, para próximo de sua “cobaia”. Logo, os três formam laços inesperados de amizade. À medida que se conhecem melhor, porém, os planos de Lisa começam a sair de controle, e cada um deles é obrigado a rever suas certezas e encarar seus medos. Será que Sol, Lisa e Clark conseguirão encontrar novos arranjos em suas vidas, servindo de apoio um ao outro na difícil tarefa de encarar a vida adulta que se aproxima? 
Comportamento altamente ilógico, o novo romance do escritor americano John Corey Whaley, é uma história sobre amizade, amor, confiança e superação. O leitor entra na mente de Solomon, um jovem de 16 anos que está há três anos sem sair de casa. Para ele, o mundo lá fora é hostil e ele não pode esperar nada de bom vindo das outras pessoas. Então, para que sair? Para nossa surpresa, ele não parece sofrer com seu problema e está bastante confortável em casa, vivendo com seus pais e curtindo suas séries de TV, como Star Trek: The next generation. 
Lisa entra na vida de Solomon como um furacão. A menina de 17 anos está terminando o Ensino Médio e pretende conseguir uma bolsa integral em Psicologia na universidade, o que significa sair o mais rápido possível da cidadezinha onde vive, na qual se sente aprisionada. Para conseguir a tal bolsa, ela precisa escrever uma redação na qual descreve seu convívio com uma pessoa com transtorno mental. Sua meta é ambiciosa: curar Solomon! Tornando-se sua amiga, ela pretende mostrar a ele que nem todas as pessoas são essencialmente más e querem feri-lo. Se os fins justificam os meios, Lisa irá descobrir mais tarde, principalmente quando envolver Clark, seu namorado, na história.
Clark é aquele atleta popular de quem todo mundo quer ser amigo. Mas ele está cansado de exercer um papel que despreza: por trás de toda aquela altura e força, está um cara doce e gentil, que não aguenta mais a companhia dos brutamontes de seu time e busca desesperadamente um amigo de verdade. Lisa ama Clark, mas duvida dos sentimentos dele por ela: depois de tanto tempo de namoro, eles ainda não transaram. Sua insegurança aumenta quando ela apresenta Sol a Clark. Os dois embarcam num bromance profundo. Afinal, de quem é o comportamento altamente ilógico? Ao que tudo indica, há mais de uma forma de se esconder do mundo. E, muitas vezes, apenas um amigo é capaz de trazer a verdade à luz. "


Querida Filha #3
Autor: Elizabeth Little
Série: Luz Negra
Tradução: Fabienne W. Mercês
Páginas: 368
"Dez anos atrás, em um julgamento que parou a América, a jovem celebridade Janie Jenkins foi condenada pelo assassinato de sua mãe. Agora, ela foi libertada devido a um problema com as provas. E está disposta a provar sua inocência e desvendar o mistério que envolve as últimas palavras da vítima. Mas primeiro precisa driblar a mídia, que promete não deixá-la em paz. Querida filha é o livro de estreia de Elizabeth Little. Um thriller sensacional sobre uma heroína improvável que talvez tenha matado a própria mãe. 
Bem-nascida, educada, criada na Europa e recém-saída da prisão. Janie Jenkins foi presa no auge da fama, acusada de ter matado a mãe, uma socialite famosa pelas obras de caridade e a capacidade de arrumar maridos ricos. Liberada pela justiça, Janie tem apenas uma pista do que pode ter ocorrido há dez anos, um nome: Adeline.
Mas primeiro precisa despistar a imprensa e o interesse mórbido do público. Com o apoio relutante de seu último advogado, Janie consegue “sumir” e parte para Dakota do Sul, em busca de redenção. Lá, encontra muito mais do que esperava. São muitas perguntas e poucas respostas, mas que podem esclarecer bem mais que o assassinato de sua mãe. Pistas que podem mudar toda a sua vida.
A cada descoberta, e a cada virada da trama, a protagonista é levada a um novo mistério e parece chegar um pouco mais perto da absolvição. Ou não? Elizabeth Little mostra um grande talento em sua estreia e cria uma trama eletrizante e engenhosa, onde o leitor é apresentado (e aprende a amar) Janie Jenkins, uma personagem cínica e sedutora que busca a verdade a qualquer custo. 
Querida filha é o terceiro título da Luz Negra, coleção que reúne a revelação do novo suspense. Mais do que descobrir o assassino ou focar na investigação de uma cena do crime, os títulos da Luz Negra enfatizam o aspecto psicológico e a ambiguidade de seus personagens. Fazem parte da coleção livros Uma garota de muita sorte, de Jessica Knoll, e Em um bosque muito escuro, de Ruth Ware. "

A perda de si 
Autor: Antonin Artaud
Série: Coleção Marginália
Tradução: Ana Kiffer e Mariana Patrício Fernandes
Páginas: 176
"A perda de si apresenta cartas selecionadas das Obras completas de Antonin Artaud (1896-1948), grande parte há poucos anos editada na França pela primeira vez e até aqui inédita no Brasil. Nas palavras da organizadora Ana Kiffer, o conteúdo “convida ao leitor a percorrer através do tempo de uma vida de escrita a escrita da vida” de um poeta muito comentado e pouco lido. O volume, que conta com tradução de Kiffer e Mariana Patrício Fernandes, dá continuidade à coleção Marginália, que revela aspectos menos conhecidos de alguns dos maiores escritores modernos a partir da reunião de cartas, bilhetes, ensaios e artigos. A curadoria está a cargo do jornalista Miguel Conde. 
Autor de uma obra repleta de blasfêmias contra o status quo reinante, dos partidos políticos à igreja, Artaud jamais deixou de ter uma aura marginal. O “desconhecimento” de seus textos, no entanto, parece estar diretamente relacionado à vastidão e à variedade de sua obra, composta de 28 volumes de 500 páginas cada um – além de desenhos, filmes, teatro e gravações de rádio. Ainda assim, poucos formatos são capazes de mostrar um Artaud tão completo quanto as cartas. De certo modo, foi por elas que se consagrou autor: quando envia seus poemas ao então editor da Nouvelle Revue Française, Jacques Rivière, este lhe nega a publicação por meio de uma carta. Tal rejeição dá início a uma correspondência muito particular entre um aspirante a escritor e um consagrado “homem de letras” – que descobre nas epístolas daquele jovem um olhar muito preciso sobre o espírito humano.
As cartas a Rivière, escritas em Paris nos anos 1920, abrem o livro com um passeio pelas vanguardas europeias e detalham aquilo que Artaud identifica como sua experiência de “abandono do espírito” – o deslocamento da atividade da escrita para um conjunto de sensações da carne e não mais para a coerência do intelecto. Da mesma época vêm as trocas com Anis Nïn e Alexandra Pecker, que, em sua crueza afetiva, desconstroem o que se consolidou chamar de “correspondência amorosa”. Na década de 1930, durante uma aventura no México, ele explora a questão do teatro e da cultura ao se deparar com a questão do outro em uma aproximação dos povos indígenas do “novo mundo”. Depois, escrevendo aos doutores Latremolière, Dequeker e Ferdière, expõe sua relação com a loucura, enquanto seu contato com André Breton faz com que o leitor possa reavaliar as relações entre modernismo, surrealismo e revolução.
Para Ana Kiffer, as cartas selecionadas compõem “uma travessia sobre uma experiência que ao desfazer linhas divisórias desestabiliza territórios anteriormente delimitados, uma travessia que transborda e, ao transbordar, cria zonas imprevistas entre o dentro e o fora, alargando o próprio espaço-limite como espaço vivível, mesmo quando irrespirável”. Antes de tudo, A perda de si: Cartas de Antonin Artaud é um livro sobre a vida em sua forma mais pulsante."


Os Fantasmas
Autor: César Aira
Tradutor: Joca Wolff
Páginas: 160
"Tempo e espaço são restritos: no último dia do ano, um novo prédio de luxo em Buenos Aires deve ser entregue aos proprietários; a construção, no entanto, segue inconclusa. Os habitantes desse pequeno universo, por outro lado, são abundantes e diversos. Pela manhã passam por lá os futuros moradores, acompanhados de arquitetos e decoradores, subindo e descendo, tirando medidas e tomando notas, enquanto, paralelamente, o trabalho dos pedreiros não cessa e o porteiro segue precária e provisoriamente ocupando um dos pisos. Mais tarde, entra em cena mais um grupo de personagens: são Os fantasmas, que dão nome ao romance do argentino César Aira. 
Mais inconvenientes que assustadores, os fantasmas surgem como uma verdadeira legião, saindo daqui e dali, com rostos inverossímeis e sempre propensos a, sem razão aparente, gargalhar e gritar como balões estourando – ainda que, em certo ponto da trama, o leitor acabe descobrindo que eles também podem conhecer a seriedade. Flutuam estupidamente como fantoches, porém são opacos, bem opacos, por mais que seus corpos branqueados até o último centímetro de pele por uma camada espessa de pó branco possam se confundir com a luz. 
Não se trata, todavia, de uma história de terror. A presença dos fantasmas, mesmo que repleta de estranheza, parece natural, enquanto a trama tem em seu núcleo a populosa família do porteiro, imigrante chileno, e os preparativos para a ceia de ano-novo. Abordando sonhos, diferenças, relacionamentos, sobremesas e supermercados, Aira se apropria de um elemento fantástico para elaborar um texto delirante e fascinante que rompe convenções e, página após página, renova expectativas – em suas próprias palavras, “sem ensinamento, informação ou posturas filosóficas e políticas”.
Escrita em 1987 e publicado pela primeira vez na Argentina em 1990, tendo permanecido inédita no Brasil por quase três décadas, a obra, que integra a fase inicial da prolífera carreira do autor, é até hoje vista pela crítica como uma das melhores de Aira – cujo currículo já soma mais de 60 romances e quase 30 volumes de contos e ensaios. Conciso e poético, capaz de combinar de maneira única o social ao surreal, construindo uma atmosfera que a revista New Yorker comparou a uma pintura de Chirico, Os fantasmas é uma narrativa sobre inocência, desejo e morte que um dos grandes nomes da literatura em língua espanhola saborosamente conduz por trilhas incertas a significados ilimitados."


O caminho de casa
Autor: Yaa Gyasi
Tradução: Waldea Barcellos
Páginas: 448
"Consagrada como melhor estreia literária pelo prêmio 2017 PEN/Hemingway, O caminho de casa é uma coleção das histórias interligadas de duas irmãs e suas sete gerações de descendentes. Nas primeiras páginas, conhecemos Effia, nascida no século XVIII, no calor almiscarado da terra dos fântis de Gana, na Costa do Ouro africana. Uma das mais belas jovens de sua aldeia, vítima da ira constante da mulher que a criou, Effia se vê afastada da família ao ter sua mão concedida a um homem branco, James Collins, governador britânico recém-nomeado para o Castelo de Cape Coast. Ali, no conforto de seu novo lar, Effia não pode imaginar que sua meia-irmã axânti, Esi – da qual desconhece a existência –, está no calabouço, empilhada com outras centenas de escravos, em meio a excrementos e gritos de raiva e medo, à espera dos navios que os levarão para as plantations na América do Norte e do Caribe. 

É nos ramos da árvore genealógica de Effia e Esi que Yaa Gyasi explora os reflexos da escravidão ao longo de 250 anos. Cada capítulo em O caminho de casa tem seu protagonista e sua história de opressão, mantida não apenas pelas correntes físicas enroladas nos pulsos e tornozelos, mas também pelas correntes invisíveis que envolviam a mente mesmo após o fim do comércio legal de escravos. 
Das fortalezas construídas pelos europeus e aldeias onde viviam os fântis e axântis nas terras africanas às plantations e minas de carvão no Alabama, Estados Unidos, aos estaleiros em Maryland e o Harlem, o leitor é apresentado a Ness, Quey, H Duas-Pa´s, Kojo Freeman, Abena, Yaw, Marcus, para citar apenas alguns dos nomes que juntos compõem um retrato do que a escravidão significou – e ainda significa – para milhões. São crianças, jovens, adultos, idosos que carregam cicatrizes físicas e emocionais inimagináveis, que se viram retirados à força dos braços de suas mães, acorrentados e enviados para o outro lado do Atlântico, e que, após o fim da escravidão, continuaram a ser segregados, vivendo sob a iminente ameaça de serem mandados de volta para seus senhores e serem presos por ocorrências como não atravessar a rua quando vinha uma mulher branca. 
“Todos eram responsáveis. Nós todos éramos... nós todos somos.” Entre os atributos do romance mais celebrados pela crítica está a coragem e honestidade da autora ao tratar de um assunto complexo como a escravidão sem recorrer a soluções fáceis como sentimentalismo e o delineamento do bem e do mal em linhas claras (The Washington Post). É com personagens negros, mestiços e brancos igualmente capazes de atos de generosidade e bárbarie que Gyasi aborda tópicos sensíveis como a cumplicidade de africanos no comércio de escravos, intensificada pela exploração de rivalidades preexistentes entre povos da mesma etnia pelo homem branco (Abro Ni, o perverso); as falsas promessas e alianças; a violenta realidade da fome, chibatadas, estupros, às vezes diários; a separação, destruição completa de famílias; as tentativas, muitas vezes frustradas, de se reerguer, fazer alguma coisa a partir de um passado que se preferiria esquecer.
“Nós acreditamos na história de quem detém o poder… Por isso, quando se estuda História, é preciso sempre fazer perguntas. Que história não está sendo contada?”, alerta a professora Yaw a seus alunos no livro. É essa história que Gyasi, se juntando a outras autoras negras como Toni Morrison (Amada) e Chimamanda Ngozi Adichie (Hibisco Roxo), tenta contar em O caminho de casa, amplificando vozes que, em pleno século XXI, continuam a ser sistematicamente silenciadas.
“Quanto vale o bicho humano?”, se questiona Effia diante das atividades comerciais do seu marido branco. Em países como os Estados Unidos e o Brasil, onde a desigualdade racial continua a pleno vapor, onde, por exemplo, a incidência de homicídios de negros é infinitamente superior à de brancos, a pergunta de Effia continua pertinente. Mais do que um retrato do quão cruel e terrível foi a escravidão, O caminho de casa mostra seu impacto no mundo contemporâneo, vem para nos lembrar como chegamos aqui, evitando que essa parte significativa da História que gera tanto desconforto seja esquecida, e chamando a atenção para a constante criação de novas formas de subjugação do negro na sociedade. É uma obra literária necessária, essencial. "

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