Leia mulheres | BEDA #7 - Quarto dos Livros

Leia mulheres | BEDA #7


Primeiro, antes de começar o post (claro, isso já está intrínseco no "Primeiro"), queremos que você lembre os escritores que te foram apresentados durante os anos escolares. Digamos que 10, 10 artesãos da palavra, todos focados em tentar, de alguma forma, traduzir na escrita, sua época e seu sentimento (do tamanho do mundo). Quantas mulheres existem entre esses 10 autores que você pensou? Duas, três... talvez nenhuma?

Por séculos, as mulheres são subjugadas em diversas atividades; desde produções artísticas até produções em campos como tecnologia e ciências exatas. Na literatura não é muito diferente. De fato, existe um ensaio da escritora Virgínia Woolf em que ela inventou uma personagem ficcional, Judith, “a irmã de Shakespeare”, para ilustrar que uma mulher com os talentos de Shakespeare teria as mesmas oportunidades dadas ao poeta para desenvolvê-los negada pois as portas estavam fechadas a mulheres.

Portanto, nós aqui do Quarto, vamos dar inicio ao nosso próprio #LeiaMulheres, onde daremos várias dicas de livros escritos por mulheres, ou protagonizados por incríveis mulheres fantásticas!
Chega de falar, né?
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1. Anna Akhmatova (1889 - 1966)
Essa aqui é da Rússia! Poetisa, Anna escreveu seu principal livro, Requiem, durante o regime stanilista e registra o horror do período, além de contar seus dias à porta da cadeia de Leningrado, a espera de seu filho. 

"Não, não foi sob um céu estrangeiro,
nem ao abrigo de asas estrangeiras –
eu estava bem no meio de meu povo,
lá onde o meu povo infelizmente estava."

2. Carolina de Jesus (1914 - 1977)
Talvez uma das escritoras mais desconhecidas dessa nossa humilde lista. Carolina foi uma das percusoras do movimento da Literatura Marginal no Brasil (não aquela produzida durante os anos de ditadura militar, mas aquela que vem das periferias brasileiras). Mulher, negra, favelada, semianalfabeta e mãe solteira, A senhorita Carolina sentiu todas as formas de opressão que podem ser impelidas a um ser, e deixou essa marca em seus textos poderosos. Ela é o exemplo de como o racismo e o machismo se fundem de maneira destrutiva em uma sociedade, deixando a sombra grandes talentos que não se encaixam em padrões sociais.

"Não digam que fui rebotalho,
que vivi à margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho,
mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro
que meu sonho era ser escritora,
mas eu não tinha dinheiro
para pagar uma editora."

3. Elizabeth Bishop (1911 - 1979)
Talvez a figura mais conhecida, Elizaneth faz parte daquele grupo de poetas dos Estados Unidos que produziu pouco, mas que deixou um legado riquíssimo. Conhecida pelo seu amor pelo Brasil, Bishop é uma das grandes escritoras estadunidenses, assim como uma figura literariamente misteriosa.

"Sozinha nos trilhos eu ia,
coração aos saltos no peito.
O espaço entre os dormentes
era excessivo, ou muito estreito.

Paisagem empobrecida:
carvalhos, pinheiros franzinos;
e além da folhagem cinzenta
vi luzir ao longe o laguinho

onde vive o eremita sujo,
como uma lágrima translúcida
a conter seus sofrimentos
ao longo dos anos, lúcida.

O eremita deu um tiro
e uma árvore balançou.
O laguinho estremeceu.
Sua galinha cocoricou.

Bradou o velho eremita:
“Amor tem que ser posto em prática!”
Ao longe, um eco esboçou
sua adesão, não muito enfática."

4. Hilda Hilst (1930 - 2004)
Reconhecida como uma das grandes vozes literárias brasileiras do século XX, Hilda Hilst possui extensa e diversa produção, indo da poesia ao teatro ao conto, enfim, extremamente versátil. Tida como uma escritora "suja" por alguns editores mais conservadores, a produção de Hilda Hilst é extremante inventiva, e altamente profunda, sendo alvo de estudos que tentam decifrar os enigmas que percorrem seus textos. 

"E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me."

5. Karina Buhr (1974)
Ok, você já deve ter visto esta maravilhosa cantando (se não viu, PROCURA AGORA!), mas a verdade é que a Karina lançou um livro recentemente com diversos poemas e cronicas e desenhos. Tudo autoral, tudo ótimo! A melancolia mesclada a aspectos militantes, marcam a obra de Karina Buhr, tanto na música quanto na literatura. 

"NA BANCA DA REVISTA
BUCETA
PUNHETA
E REGIME

NO MÁXIMO BEBÊS

NO MÁXIMO 
DECORAÇÃO E JARDINAGEM"

6. Orides Fontela (1940 - 1998)
Orides é daquela poetas de uma pegada mais filosófica, lê-la é um grande mergulho na alma. Recentemente, a editora Hedra publicou o volume com todos os seus livro de poesia. E, diga-se, é extremante ótimo! 

"Instaura-se a forma 

num só ato

a luz da forma é um único 
ápice 
o fruto é uma única forma 
instaurada plenamente

(o amor é unicamente
quando in-forma)

... mas custa o Sol a atravessar o deserto
... mas custa a amadurecer a luz
... mas custa o sangue a pressentir o horizonte "

7. Toni Morrison (1931)
Toni Morrison foi uma das poucas mulheres a ganharem o Nobel de Literatura (em 1993). Sua obra é marcada pelo forte caráter emocional, e por retratar a vida das mulheres negras nos Estados Unidos, um país que passou boa parte do século XX mergulhado no racismo. Sua obra mais aclamada é o romance Amada.

“Estava falando do tempo. É tão difícil para mim acreditar no tempo. Algumas coisas vão embora. Passam. Algumas coisas ficam. Eu pensava que era minha rememória. Sabe. Algumas coisas você esquece. Outras coisas, não esquece nunca. Mas não é. Lugares, os lugares ainda estão lá. Se uma casa pega fogo, desaparece, mas o lugar – a imagem dela – fica, e não só na minha rememória, mas lá fora, no mundo”. 

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