RESENHA: Retalhos - Craig Thompson - Quarto dos Livros

RESENHA: Retalhos - Craig Thompson


Thompson retrata sua própria história, da infância até o início da vida adulta, numa cidadezinha de Wisconsin, no centro dos Estados Unidos, que parece estar sempre coberta pela neve. Seu crescimento é marcado pelo temor a Deus - transmitido por sua família, seu colégio, seu pastor e as trágicas passagens bíblicas que lê -, que se interpõe contra seus desejos, como o de se expressar pelo desenho. Ao mesmo tempo Thompson descreve a relação com o irmão mais novo, com quem ele dividiu a cama durante toda a infância. Conforme amadurecem, os irmãos se distanciam, episódio narrado com rara sensibilidade pelo autor. Com a adolescência, seus desejos se expandem e acabam tomando forma em Raina - uma garota vivaz, de alma poética e impulsiva, quase o oposto total de Thompson - com quem começa a relação que mudará as visões que ele tem da família, de Deus, do futuro e, enfim, do próprio amor. Retalhos traz as dores e as paixões dos melhores romances de formação - mas dentro de uma linguagem gráfica própria e extremamente original. 

A resenha de hoje é de uma história em quadrinhos. Mas não daquelas em que as pessoas voam, tem superpoderes e salvam o mundo, ou HQs cômicas e divertidas e ácidas. Os quadrinhos funcionam de maneira muito competente quando se trata de contar tramas mais emocionalmente complexas, pois na HQ o recurso imagético é largamente utilizado, descartando o recurso das descrições de espaço, não abrindo mão delas quando necessário.

A HQ em questão é "Retalhos", do Craig Thompson. Premiadíssima por aí, "Retalhos" é um relato sensível e duro sobre relações familiares, e sobre como uma pessoa encontra sua individualidade em meio ao caos opressor que é o meio social, que exerce influência direta em suas decisões, em suas não decisões e, sobretudo, em seus desenhos.

Craig é um garoto que vive com os pais e o irmão no meio oeste dos Estados Unidos, na cidade de Wisconsin. Craig vem de uma família extremamente cristã, assim como o resto da comunidade. Ele sofre bulliyng na escola por morar na parte rural da cidade e por ser extremamente magro e extremamente “estranho”. Por crescer numa comunidade altamente cristã, é normal que Craig creia em Deus e na bíblia e tudo, mas o principal é quando, no decorrer da história, vemos o que essa bíblia que Craig acredita, ou esse Deus, que difere muito do que é Deus, do que é salvação. O protagonista a todo mundo faz apontamentos sobre questões pessoais de paraíso, de coletividade, sobre crescer ou não, e sobre deus ou não-deus.

Quando Craig conhece Raina, sua vida dá uma transformada, pois pela primeira vez ele se sente apaixonado por uma pessoa e isso faz com que se sinta apaixonado pela vida. Eu devo ressaltar aqui a complexidade emocional de cada personagem, pois os pais de Raina estão se divorciando, ela precisa cuidar da irmã que possui retardo, e se preocupar com a filha de sua outra irmã mais velha, que não se preocupa o suficiente com a criança (ela o chama de bebe e não de Laura, que é o nome da criança). Então, Raina não vem apenas como uma affair de Craig, como uma personagem secundária, e sim com toda a força emocional que uma pessoa carrega. Os dois namoram? Depende do que você chama de namoro. É lindo? É. Entretanto, sem aquela pieguice comum dos romances adolescentes. É uma entrega mutua em mundo de desespero. Os dois são, ao mesmo tempo, balde e poço. E isso torna a relação dos dois tão intimamente poderosa, pois eles se salvam: criam um refúgio, e durante o tempo que convivem, o mundo não é tão ameaçador. E entre uma colcha, poesia e desenhos os dois existem por tempo indeterminadamente finito. 

Porém, Craig cresce. E esse crescer é o mais poderoso que você poderia imaginar. Ele floresce. Como uma flor no mangue. Assim que termina a escola, muda de cidade, faz amizades, corta os cabelos, se dedica a sua arte, enfim, Craig cresce, mas nem por isso deixa o lugar que viveu. É engaçado pensarmos no processo de amadurecimento do Craig, pois ele desacredita do Cristianismo, logo após ler uma passagem da bíblia, e essa desapego do cristianismo (e não de deus, veja bem) é que faz com que ele floresça plenamente. Não estamos dizendo, contudo, que o cristianismo era o responsável por impedir sua vida de seguir, mas podemos entender o cristianismo como uma ideia de força opressora que exerce tal poder negativo em sua vida, que ele não conseguia se libertar de maneira alguma. Quando ele abandona o cristianismo, quando ele se liberta da força opressora, é que ele tem o controle de sua vida, de suas decisões e, principalmente, de suas não decisões.

Porém, o livro não se resume a isso, a deus e opressão, ele é mais abrangente que isso. Ele segue na linha do crescer, do amadurecer, de como estamos tão preocupados em ser e acabamos não estando em lugar algum; de como a plenitude da vida não reside em livros, ou em ouvir pessoas falarem sobre salvação, e sim em se colocar perante si e saber sobre seus silêncios e dominá-los. 

"Retalhos" é aquele livro que primeiro você desacredita por ser uma HQ (passei por isso, acredite), mas depois você se vê envolvido por cada emoção do personagem, por cada traço preciso, cada emoção dita e desenhada. Depois desse livro, a certeza de que ser (e estar como) pessoa é mais complexo do que se imagina, se torna cada vez mais evidente. E como isso é uma delícia, afinal, já diria Caetano: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.



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