RESENHA: O Quinze - Rachel de Queiroz | Clube do Livro - Quarto dos Livros

RESENHA: O Quinze - Rachel de Queiroz | Clube do Livro

O Quinze causou sensação, e ainda hoje desperta interesse, pelo drama que descreve: o embate entre o homem e a natureza, no trágico destino de um povo assolado pela grande seca de 1915 que, diga-se, não foi a última. Rachel de Queiroz, a primeira mulher a se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras, retrata em sua obra a história de um amor irrealizado da mocinha que lê romances franceses e sonha com o moço rude entregue à faina solitária de salvar seu gado; e a dramática marcha a pé de um retirante e sua família, sonhando chegar ao Amazonas.
A resenha de hoje é feita especialmente para o Clube do Livro, um grupo mara do Facebook que nós fazemos parte. O tema dessa mês é: "livros que possuem apenas uma palavra no título". Tá, ai vem a pergunta: "mas, Quarto, o nome do livro é O QUINZE e não só QUINZE, tá errado"; mana, não dê esse close errado. Trabalhei em livraria e nós não contávamos o artigo na organização dos livros nas prateleiras e, além disso, o artigo, neste caso, assume um papel de relevância muito menor do o título realmente. Estamos entendidas? Estamos. Podemos seguir com a resenha? Podemos. Obrigada <3.

Inesquecível: acredito que este seja ao adjetivo mais cabível ao livro "O Quinze", da Rachel de Queiroz. O livro conta, sob duas histórias distintas, mas interligadas pelo aspecto mais marcante do sertão nordestino, a seca. Ambientado no começo do século XX, a obra conta como esses dois núcleos distintos lidam com a falta de água e o calor extremo. 

Vicente, o vaqueiro, que encarna, no decorrer do romance, o papel do perseverante dono de terra, que cuida do gado e espera, pacientemente, que a seca passe e volte a fartura do sertão. Ele tem meio que um crush na prima Conceição, moça estudada, professora, com um discurso feminista tão forte que se torna encantadora desde o início da história. Ela, aliás, também tem um crush no Vicente, mas os dois são muito cabeças-duras para admitir isso. 

No outro núcleo, o mais importante do romance, temos a história de Chico Bento, que, depois de ser demitido do sítio em que trabalhava, partiu com sua família para outra terra, onde houvesse algum trabalho. Durante a história da peregrinação da família de Chico Bento, temos uma intrigante reconstrução do que era, para muitos, esse deslocamento. 
Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho. E a mão servil, acostumada à sujeição no trabalho, estendeu-se maquinalmente num pedido... mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante. A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esboçado se retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e um engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda os ouvidos: "Mãe, dá tumê..." E o homenzinho ficou espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daquela miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo...

É angustiante acompanhar a trajetória da família até a cidade, pois, enquanto, várias coisas são perdidas e deixadas, e não apenas materiais, veja bem. Chico Bento e a esposa perdem dois filhos: um morreu por, em desespero, ter comido as raízes de mandioca brava e o outro fugiu.
A criança era só osso e pele: o relevo do ventre inchado formava quase um aleijão naquela magreza, esticando o couro seco de defunto, empretecido e malcheiroso. Quando o pai chegou transo consigo uma negra velha rezadeira, Josias, inconsciente, já com o cirro da morte, sibilava, mal podendo com a respiração estertorosa. A velha olhou o doente, abanou o pixaim enfarinhado: - Tem mais jeito não... esse já é de Nosso Senhor... Cordulina ergueu por momento a cabeça, fitou a velha, e depois, mergulhando de novo a cara entre os joelhos, redobrou o choro. A negra, por via das dúvidas, começou a rodar em torno do menino, benzeu-o com um ramo murcho tirado do seio chocalhante de medalhas, resmungando rezas: - Dunde vens, Pedros e Paulos? Venho de Roma. O que de novo em Roma, Pedros e Paulos?... Chico Bento se encostara à vara de prensa, sem chapéu, a cabeça pendida, fitando dolorosamente a agonia do filho. E a criança, com o cirro mais forte e mais rouco, ia-se acabando devagar, com a dureza e o tinido dum balão que vai espocar porque encheu demais. 
"O Quinze" é uma excelente obra! Em meio a uma técnica narrativa apurada, Rachel de Queiroz expande de maneira brilhante as mazelas que assolaram os nordestinos que sofreram com a seca. Para aquelas pessoas que adoram expressar seu ódio contra o povo do Nordeste, fica uma leitura obrigatória.

Logo a baixo, tem uma lista com todos os blogs que fazem parte do Clube do Livro, são blogs ótimos e de nichos diferentes, inclusive, tem dois canais de booktubers também. Então corre conferir o livro que eles escolheram para esse mês! E o livro para o mês que vem será divulgado no instagram @blogquartodoslivros. Segue lá!








9 comentários:

  1. Olá Lucas, tudo bem?
    Primeiramente, eu amei a sua resenha. Eu tenho um caso de amor e ódio com literatura brasileira, eu não sou fã dos livros, mas eu faço faculdade de Letras Literatura, então já deu pra perceber como eu sou confusa quando se trata de algo relacionado a isso né?
    Porém, esse livro me parece tão denso, me lembrou os dias que passei lendo Vidas Secas, me perguntando a cada virada de página como aquele autor poderia escrever daquela forma, e esse parece ser exatamente esse tipo de livro. Então, me convenceu, pretendo colocar esse livro na lista sim. kkkk

    Beijos,
    Lor
    http://horadaleituraa.com.br

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    1. Olá! Desculpe a demora rs
      Este livro é fantástico mesmo! Também faço Letras, mas mesmo antes de começar, já gostava muito de literatura brasileira. Realmente, esse livro tem todos os elementos que compõem obras grandiosa do período regionalista da literatura brasileira, como "Grande Sertão: veredas" e "Vidas Secas". Super recomendo a leitura. E: é curtinho.

      Beijos.

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  2. Amei a resenha! O livro parece ser super interessante e com um conteúdo pra lá de importante! Ainda existem tantos lugares que sofrem com uma seca constante, mas isso é esquecido rapidamente. A seca virou assunto importante quando atingiu São Paulo. Ainda lembro da raiva que senti ao ver os jornais mostrando como a população estava se virando, fazendo coisas que EU cresci fazendo, mas nunca passou no jornal. Definitivamente esse livro vai pra minha lista de leitura <3

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    1. OI, Vanessa! Sim, infelizmente, a seca no nordeste é um problema ainda extremamente atual, entretanto, só ganha visibilidade quando afeta o sudeste. Triste.

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  3. Sou loucaaaaaaa pra ler esse livro desde o começo de meu Ensino Médio. Minha professora de Literatura é apaixonada por ele e sempre indicava nas aulas e até hoje não tive coragem de meter a cara nele, mas depois dessa resenha percebi que faz até vergonha não ter lido por preguiça!

    xox
    Próxima Primavera

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    1. Mulhé, leia logo e conta pra gente o que achou, por favor!

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  4. Eu nunca li nada sobre ela, minha amiga fez um TCC sobre vida e obra de Rachel de Queiroz usando O Quinze como base. Ótima resenha, parabéns!

    Beijoooo

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  5. Oi, tudo bem?
    Li esse livro faz alguns anos... Era leitura obrigatória do vestibular. Lembro que na época não gostei muito, mas acho que preciso rever minha opinião sobre ele! Parabéns pela escolha e pela resenha!

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