RESENHA: Carrie, a estranha - Stephen King - Quarto dos Livros

RESENHA: Carrie, a estranha - Stephen King


'Carrie, a estranha' narra a atormentada adolescência de uma jovem problemática, perseguida pelos colegas, professores e impedida pela mãe de levar a vida como as garotas de sua idade. Só que Carrie guarda um segredo - quando ela está por perto, objetos voam, portas são trancadas ao sabor do nada, velas se apagam e voltam a iluminar, misteriosamente. Aos 16 anos, desajustada socialmente, Carrie prepara sua vingança contra todos os que a prejudicaram. A vendeta vem à tona de forma tão furiosa e amedrontadora que até hoje permanece como exemplo de uma das mais chocantes e inovadoras narrativas de terror de todos os tempos. Com tantos ingredientes de suspense, 'Carrie, a estranha' logo se transformou num enorme sucesso internacional e passou a integrar a mitologia americana.

Eu não leio livros de terror ou suspense, a coisa mais próxima que cheguei de suspense foram os livros da Agatha Christie. Mas "Carrie, a estranha" sempre me causou uma espécie de fascínio indescritível. Claro, todos já viram algum dos três filmes, e sabem basicamente a história. Entretanto, acho que ninguém está preparado para "Carrie, a estranha". Mesmo tendo assistindo aos três filmes, ninguém realmente está preparado para pulsação sinistra e suplicante que há em Carrie. 

Carrie White é a garota excluída, que sofre em casa nas mãos da mãe fanática e atormentada, e devido a isso sofre na vizinhança também. E na escola não é muito diferente, pois Carrie é esquisita: postura, jeito, voz, enfim, Carrie é o alvo favorito da escola. 

Entretanto, Carrie possui o dom da telecinese, que é reprimido por sua mãe. Ela cresce sem nem ao menos saber o que é menstruação, o que gera uma das cenas mais memoráveis do livro.
No entanto os fatos são incontestáveis. Quando Carrie constatou que estava sangrando pela vagina, não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Desconhecia inteiramente toda a concepção da menstruação. Uma das colegas sobreviventes, Ruth Gogan, conta que, um ano antes do acontecimento acima relatado, ela  entrou no vestiário das meninas da Ewen High School, e viu Carrie usando um Modess para tirar a pintura.
Nesse ambiente assustador, é comum termos autores romantizando esse tipo de coisa, sempre colocando um príncipe na escola, ou uma pessoa bondosa que escuta e quer ajudar a protagonista, entretanto não é o que acontece aqui: Stephen King cria um relato extremante cruel das coisas, numa narrativa epistolar que mescla depoimentos dos colegas de classe de Carrie à relatórios médicos e policiais, criando um ambiente instável de progressão da história, porém totalmente eletrizante e cruel. 

Apesar de tudo isso, o que podemos dizer sobre "Carrie, a estranha"? Além do fator suspense, do dom de telecinese, do ambiente escolar opressor, da mãe fanática, dos desejos reprimidos da protagonista, o que podemos afinal dizer sobre "Carrie, a estranha"? (Amo essas perguntas no meio das resenhas, me ajudam a chegar a algum lugar e fazer com que você chegue lá comigo (ou talvez nos perderemos juntos no caminho até lá, afinal, estamos todos no caminho para algum lugar, não é mesmo?))
A expressão "sinto muito" é o xarope das relações humanas. É o que se diz quando se derrama uma xícara de café ou se joga uma bola fora numa partida de boliche com as garotas da turma. Mas sentir realmente o que aconteceu é raro como o amor verdadeiro.
Acredito que Carrie trouxe de volta aquelas questões sobre a violência no ensino médio, ao abordar o bullying e tudo mais, porém, consegue ir muito além disso, ao tecer uma cuidadosa e certeira crítica ao fanatismo religioso, que tem causado tantos conflitos hoje em dia.

E sobre os filmes: infelizmente, na humilde opinião deste inculto e incerto que vos fala, nenhum deles conseguiu captar a essência desesperadora e assombrosa que há no livro. E, veja bem, sou totalmente aberto a adaptações de livros e tal, mas realmente, sempre falta alguma coisa nos filmes.

E, só para terminar, LEIA CARRIE, A ESTRANHA! Vá saber o que é o livro, vá sentir o que é ser A estranha, vá conhecer um pouco mais sobre os efeitos do fanatismo religioso e do bullying.

Consideração: a cena final, é a mais impactante que você lerá por esses dias.
Talvez tenha sido neste instante que Carrie perdeu todo o controle. Encostada na porta, seu coração batia violentamente. mas o corpo parecia uma pedra de gelo. O rosto lívido, as faces ardendo em febre, sua cabeça latejava descompassadamente. Perdera o raciocínio lógico. Mantendo as portas sempre fechadas, afastou-se cambaleando, sem pensar em nada, sem um plano fixo. Lá dentro as chamas aumentavam, e vagamente se lembrou de que o mural devia estar em fogo.
No alto da escada, desfaleceu. Apoiou a cabeça nos joelhos, procurando respirar mais devagar. Eles estavam tentando abrir as portas novamente, mas ela as mantinha fechadas com facilidade - não era nenhum esforço especial. Um sentido obscuro lhe dizia que algumas pessoas estavam escapando pela porta de emergência. Não importava. Mais tarde as pegaria. Pegaria a todos. Sem exceção.

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