RESENHA: E se eu fosse puta - Amara Moira

“E se eu fosse puta é o quê? Você, leitor, que me diz. Tem de tudo um pouco, mas sobretudo verdade, dessas que a gente gosta só debaixo do tapete, bem escondidinha, o dia a dia da rua, a barganha, a cama, o homem depois de gozar. Amara se vê travesti e junto descobre a vida que haveria a partir de então, puta aonde quer que fosse, fosse para cuspir, fosse para perguntar discretamente o preço ("tudo no sigilo, sou casado, sabe?"). Corpo que não tem lugar, corpo que se fazia à revelia das regras, das normas, corpo que se prestava para a sombra, essa era eu e eu não fazia sentido, sequer sabia aonde eu queria chegar. Quem me entendia? Esse livro é sobre a escolha que não faz sentido, esse livro é sobre buscar porquês. E se eu fosse puta? E se eu fosse você? ”


É engraçado pensarmos no mundo hipócrita que vivemos. A simples menção de qualquer palavra ligada a sexo pode causar um sério desconforto em diversas pessoas. O mesmo vale para palavras que aludem à prostituição: puta, vagabunda, biscate, vadia, kenga, enfim, a lista é extensa. Se seguirmos essa linha de hipocrisia social, chegaremos ao tabu de se falar sobre homossexuais. Quem dirá de transexuais ou travestis (se você convive com alguém mais velho, pergunte se ela sabe o que é alguém invertido)! E SE VOCÊ POR ACASO INDAGAR SOBRE A PROSTITUIÇÃO DE TRANSEXUAIS E TRAVESTIS?! Nossa, nem queira; é provável que muitos rostos se virem.

Mas o que isso tem a ver com resenha de livros? Primeiro, é necessário entender que os chamados tabus sociais oprimem diversas pessoas, e marginalizam grupos sociais. Isso já assunto para a literatura. Segundo que ano passado, a editora Hoo lançou o livro “e se eu fosse puta”, da Amara Moira (que conta com ilustração da Laerte maravilhosa!), onde a autora relata sua experiência como puta, e revela os preconceitos que uma travesti sofre, assim como casos deliciosos que aconteceram nesses anos de calçada. 

“Lucas, vem provar o gostinho desse mundo que vai por terra quando a gente diz umas verdades! ”. Essa dedicatória aí, mostra exatamente um dos propósitos do livro: acabar com esse silêncio em volta da comunidade de Travestis e Transexuais. É muito interessante ressaltarmos aqui, que hoje é dia da visibilidade trans. no Brasil (país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Entre janeiro de 2008 e março de 2014, foram registradas 604 mortes no país, segundo pesquisa da organização não governamental (ONG) Transgender Europe (TGEU), rede europeia de organizações que apoiam os direitos da população transgênero). Portanto, o livro da Amara vem um momento propício.

O livro possui um tom de conversa informal, o que torna a leitura muito mais agradável e fluida. A autora conta desde sua entrada no mundo da prostituição, passando pelas amizades desfeitas por conta de sua escolha, até os casos inusitados envolvendo os clientes. Entretanto, o livro não se resume a isso, pois a Amara é militante do movimento LGBT e feminista, ou seja, o livro todo escancara como a sociedade reagi a população T, e principalmente as que escolhem a profissão de puta.
“ (uma, inclusive, rompeu comigo assim que, numa conversa informal dói anos atrás, confessei a ideia que me tirava o sono: sete anos de amizade e bastou “tou pensando” para tudo ir pro saco, e aqui a gente vê o peso do estigma que carregamos – “te aceitei travesti, mas puta não... você vai pegar AIDS, vai ser violentada, não tem como, tchau”) ”
Os monólogos da Amara são os que mostram um teor literário muito forte; resultado do refinamento que os anos no Doutorado em Teoria da Literatura trouxeram. Viscerais e tristes, a autora mostra toda sua fragilidade, contrastando com o tom militante do restante do livro.

No todo, E se eu fosse puta acaba sendo um dos lançamentos mais importantes do mercado editorial brasileiro de 2016. Militante, frágil, engraçado e desbocado, Amara fez uma coisa que há muito não acontecia por aqui: um belo vrá.

P.S.: Ah, a edição ainda com ilustrações da Laerte!




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