RESENHA: Na escuridão, amanhã - Rogério Pereira - Quarto dos Livros

RESENHA: Na escuridão, amanhã - Rogério Pereira

 Foto: Luane Chinaide
“Ambientada primeiro no campo, no interior de um estado do sul do Brasil, a narrativa desvenda uma roça anti-idílica, sufocante, em que os protagonistas – um casal e seus três filhos – se enredam cada vez mais na ausência de comunicação, perseguidos pela Idea de um Deus sem piedade. Ao migrar para a cidade grande em busca de vida melhor, a família se desgarra e se perde. A escuridão é o fim, o fim dos personagens, dos sonhos, das angústias. Amanhã é a incerteza, a perspectiva de um futuro desconhecido, mas certamente ameaçador, pois é impossível que traga algo de bom. Viver é avançar para lugar nenhum. Por mais que invoque a proteção de Deus, não há conforto na experiência amedrontada, desencadeada da vida dos personagens deste livro em que a memória é convocada obsessivamente, como se narrar o que foi vivido pudesse ser uma redenção. O resultado é uma obra surpreendente em sua força claustrofóbica e em sua poesia contundente. ”

Direto do catálogo da falecida Cosac Naify (que deus a tenha), Rogério Pereira caiu como uma bomba em minhas rotinas literárias. Eu não sabia realmente o que esperar de um autor que usava, logo no título, elementos tão incertos como “escuridão” e “amanhã”. Elementos que, de certa forma, deixam-nos melancólicos e acuados, como a escuridão, ainda mais quando ele coloca uma preposição como o ‘na’, dando um quê claustrofóbico ao escuro. Ou tão incerto e impreciso como o amanhã, que desativa o alarme de todas as saídas de emergência que existem em cada caminho de nossa alma, pois não há realmente como saber o que nos esperar no amanhã. Rogério Pereira, devo dizer, deixou-me extremamente triste e vidrado. Eu consumi seu livro, bebi cada palavra e me deixei ser preenchido pela liquidez de seus personagens.

“- Deus não tem ouvido para nós, mãe. Dá sua boca banguela, mãe, só a clemência. Ele nos abandonou”.

O livro é narrado por uma perspectiva apenas: a de um filho negligenciado por um pai perverso e opressor, com uma mãe que, alienada na religião, não percebe da real vida que passa por seus dedos, e que possui irmãos altamente perturbados com a frieza da casa e pela animalidade do pai. Rogério Pereira consegue, ainda, traçar um panorama social da população rural brasileira, que, quando chegam na cidade, no livro chamada apenas de C., acabam enfiados nas periferias e na ânsia pela busca de qualidade de vida são engolidos pela metrópole, que os arrasta cada vez mais fundo em suas vísceras pegajosas. 

O livro não possui capítulos, corre livre... apenas parando em cartas que o menino escreve ao pai, e voltando ao relato impreciso da realidade sufocante. 

Não é fácil de ler, assim como não é fácil sentir. Assim como não é fácil ser pessoa. Assim como na escuridão, em que nada parece existir realmente, só a consciência e a inconsciência e o próprio corpo. Assim como amanhã, que te desmonta, te obriga a fantasiar sobre o futuro, que pode não vir. Não sei se dá para sentir o que eu senti durante a leitura, mas, acredite, esse livro é uma chacoalhada no seu eu de dentro.




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