RESENHA: Poética - Ana Cristina Cesar



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"Poética", da Ana Cristina Cesar, é uma reunião dos quatro livros que a autora publicou em vida, "Cenas de abril" (1979), "Correspondência completa" (1979), "Luvas de pelica" (1980) e "A teus pés: prosa e poesia" (1982) e três póstumos, "Inéditos e dispersos: poesia/prosa" (1985), "Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa" (2008) e "Visita à oficina", que foi feito especialmente para essa edição. 

Considerada uma das grandes poetas brasileiras do séc. XX, a obra de Ana C. esvazia... e preenche espaços, ao mesmo tempo. O primeiro livro dessa reunião é o "Cenas de Abril" (1979), um livro altamente sensível e de difícil penetração. Pedia-se ao leitor uma leitura do não-dito, atenta, reflexiva. É nesse livro que consta seu poema mais famoso, selecionado para a coletânea “Os cem Melhor Poemas Brasileiros”:


“Olho muito tempo o corpo de um poema 
Até perder de vista o que não seja corpo 
E sentir separado dentre os dentes 
Um filete de sangue 
Nas gengivas. ” 

Ler "Cenas de Abril" pode ser uma escolha corajosa: o livro todo exige um coração aberto, uma vontade de explorar os cantos de uma alma que não se cansa de tentar encontrar-se. Ou encontra-se, e nós todos tateamos abobados tentando acompanhar sua "encontrisse". E não se engane com relação ao tamanho, pois esse livro é o começo de uma viagem que logo anuncia: 

“É sempre mais difícil 

Ancorar um navio no espaço”.


Passado “Cenas de Abril”, o livro que segue é “Correspondência Completa”, de 1979. O livro é aparentemente sem vergonha: ora essa, onde já se viu publicar uma carta de apenas algumas páginas e chamar de livro! Novamente, não se engane: "Correspondência completa" se revela um diálogo entre o poeta e o. A realidade do livro é inquietante, pois revela uma mulher fora do padrão construído, que fala sobre o prazer do sexo, e, mesmo assim, ao final, revela certo pudor em um único P.S.; revela uma juventude que brigava pelo o que acreditava, que vivia em regime autoritário, mas ainda tinha gana de levantar as ideias e espalhar o cheiro delas no ambiente todo – ou no livro antes do texto, afinal, como diz Julia, “inventar o livro antes do texto. Inventar o texto para caber no livro. O livro é anterior. O prazer é anterior, babaca”; e, em certos momentos, o "Correspondência Completa" acaba sendo, aos olhos desse pobre blogueiro, um livro com diversos pontos reveladores da situação em que os escritores se encontravam, pois o cada material publicado no Brasil nos anos 70 era minuciosamente analisado para, quiçá, ser editado e publicado, e aproveitando o gancho, a alienação do povo que lia sua poesia sem nem ao menos entender suas referências diretas.

E é frustrante, veja bem, porque o que eu mais quis ao fim da leitura foi ler a carta que gerou uma outra como essa. Em outras palavras (nas da poetiza, na verdade) “não estou conseguindo expressar minha ternura, minha ternura, entende? ”.

"Luvas de pelica" já vem com uma chuva de gotas cinza, a tristeza que permeia o livro é muito pulsante – quase dá para sentir o cheiro da melancolia. “Estou muito compenetrada no meu pânico. Lá de dentro tomando medidas preventivas. ”. O livro, mais robusto que os anteriores, alterna entre versos e prosa e ensaio e tradução e sentimento saltando entre tantas modalidades diferentes e... esses meus e ’s estão chatos, eu imagino, porém eles são altamente cabíveis para tentar mostra-te o quão desconexamente adequado é "Luvas de pelica". Acompanhamos a construção de uma construção: o começo do que é um esquema para algo maior, que pulsa, que se transforma em algo novo a cada parágrafo ou estrofe passado.

(Devo dizer aqui que não consigo expressar nada além de admiração por Ana C. Desculpe se pareço altamente tietizador, ou mesmo repetitivo, mas é aquele ditado)

Chegamos ao melhor: "A teus pés". Que segundo a autora é um livro alegre, veja bem. E o que é mais característico do período pós-moderno do que o primeiro poema, né gente, essa briga entre gerações ocorrendo em cada verso mostram que Ana C é pop. Mas aquele Pop erudito... descolada. A teus pés possui aquela mão de poeta dona do seu trabalho, experimentado tipos novos de dizer o indizível, mentindo a realidade verdadeira da melhor maneira possível, dando a alma como lavada mesmo que tenha aprendido tarde sobre isso. 

Sempre fui encanado com livros póstumos; nunca consegui realmente lê-los sem pensar “orra, mexeram nas coisas do cara sem ele saber... puts”. Porém, quando vejo os trabalhos belos que emergem de tais atos, me vejo sendo levantando pelos tornozelos para o céu e me deslumbrando. Foi o que aconteceu com a leitura dos póstumos de Ana C. E mesmo que não tenham passado por sua primorosa organização, seleção e edição, acredito que da maneira que foram publicados tornaram-se apenas um arauto à genialidade de uma das grandes vozes da literatura brasileira. 

Bom, como eu disse, não consegui ser nada menos do que um admirador falando sobre um autor admirado. Prometo melhorar nas próximas, sim? Ó, só mais um poema:

“1.

Enquanto leio, meus peitos estão em desordem. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio.
2.
Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. E difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio.




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